Quando somos crescidos

Folha de S.Paulo, João Pereira Coutinho – 12/04/2016

“O que você quer ser quando crescer?” A pergunta, infantil, é normalmente dirigida às crianças. Mas eu gosto, repito, insisto.

Já escutei de tudo – de astronauta a presidiário (juro). Mas um filho de amigos, oito anos, criança normalíssima, deu a resposta mais notável de meu histórico inquisitivo. “Aposentado. Quero ser aposentado.”

Os pais riem, nervosamente: são ambos profissionais bem-sucedidos, bem instalados, bem medicados e não gostam dessas exibições de “preguiça”. Pobres pais. Eles deveriam saber que têm na frente uma criança inventiva, inteligente e provavelmente talhada para a felicidade.

Eis o problema, filosoficamente falando: nossas pobres existências burguesas caíram na suprema armadilha de fazer da profissão a principal fonte de identidade. Era quase inevitável: com o recuo das teologias tradicionais e a crescente atomização social – seres isolados, sem vida comunitária digna de nome, que cumprem diariamente o calvário casa, trabalho, casa – o que fazemos não é apenas uma forma legal (no sentido jurídico) de ganhar a vida.

O trabalho define quem somos e as conversas cotidianas não mentem. “Prazer em conhecê-lo”, dizem os estranhos a quem somos apresentados. E depois acrescentam: “E você faz o quê?”. Bizarro: depois do nome, a profissão. Várias vezes respondi: “Rigorosamente nada.” O outro fica pasmado, desconfortável, como se eu tivesse confessado um crime.

Então eu dou uma risada e respondo: “Sou colunista” (sim, os cínicos dirão que isso é eufemismo para não fazer nada). Suspiros de alívio. Sou finalmente readmitido na tribo.

Mas se o trabalho é a principal fonte de identidade, isso tem um preço perverso: sem trabalho, não há identidade. Conheço casos, próximos, dolorosamente próximos: a aposentadoria chega e os dias são invadidos pelo vazio absoluto. Mesmo quando o trabalho cessante era uma fonte perpétua de lamentações e cansaços.

É fácil argumentar que a libertação desse trabalho oferece possibilidades mil de ociosidade, viagem, leitura – ou, então, novas ocupações, improváveis ocupações, até delirantes ocupações (só conheci um caso: um antigo professor universitário que, cansado da rotina, abriu uma pista de kart, uma velha paixão de infância).

Mas a filosofia, também aqui, explica muita coisa: o trabalho não confere apenas uma identidade; ele cria a ilusão de que essa identidade é rígida, monolítica, solidificada. Somos o que fazemos, ponto final. Não podemos ser nem fazer outra coisa qualquer.

É contra esse pensamento lúgubre que a revista “Atlantic” se insurge na sua edição mais recente. Escreve Barbara Bradley Hagerty que, nos Estados Unidos, só metade do pessoal com 40, 50 ou 60 anos se sente “realizado” com o que faz.

Essa falta de “sentido” tem um preço bem tangível: física e psicologicamente, esses náufragos correm risco de afogamento (depressões, infartos etc.). Daí vem a pergunta: e por que não mudar?

Verdade, verdade: aos 40 ou 50 ou 60 não é fácil mudar. Contas, filhos, um certo “nível de vida”. Mas não é impossível – menos jantares, uma casa mais pequena, um carro mais modesto. Pequenas mudanças, grandes mudanças – o resultado é sempre positivo. Mesmo quando existe o fracasso eventual.

Como escreve Hagerty, depois de ouvir vários trabalhadores – dos temerosos aos temerários -, aquilo que mais custa não é ter tentado e falhado. É nunca ter tentado. A angústia desses últimos suplanta o fracasso dos primeiros.

Claro que Hagerty fala sobretudo para os descontentes – e não para aqueles que têm o trabalho sonhado. Mas mesmo esses – “the happy few” – irão enfrentar o fim de uma carreira. E, depois desse fim, vem o dia seguinte. Os dias seguintes. Que fazer, meu Deus, que fazer?

Pessoalmente, não tenho razões de queixa: faço o que gosto. E uma vida de escrita é uma boa escola de solidão. Além disso, quando existe o prazer da leitura, isso também é um seguro de vida que só termina com a própria vida (um conselho que deixo aos mais jovens: gostar de ler é ter companhia fiel, mesmo quando as outras companhias nos deixaram há muito).

Mas me imagino facilmente ocupando os dias com um bistrô junto à praia, jingles comerciais publicitários ou um talento nunca explorado para truques de magia.

A carreira de presidiário, essa pode ficar para uma próxima vida.

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