Ansiedade dos executivos brasileiros aumenta e preocupa as empresas

Valor Econômico, Letícia Arcoverde – 11/02/2015

Wagner Marques, diretor-presidente da CCR Actua, adotou o coaching com o objetivo de atenuar a ansiedade dos gestores mais jovens da companhia

Em um mundo em que o trabalho é cada vez mais marcado pelo excesso de informações, forte pressão por resultados e constantes incertezas, a ansiedade desponta como o grande desafio profissional a ser superado pelos executivos. De olho em um cenário econômico ainda mais difícil em 2015, algumas empresas estão buscando alternativas para preparar melhor seus gestores para lidarem com essa questão.

Segundo pesquisa realizada pela Weigel Coaching com 1.280 profissionais de diversas idades, Estados e setores, a ansiedade é a principal dificuldade enfrentada no ambiente de trabalho atual. “É um problema bastante recorrente, que aparece em níveis muito acima do suportável”, diz a coach Jaqueline Weigel, responsável pelo estudo.

Para o levantamento, os participantes tiveram que apontar o nível de ansiedade que sentem em uma escala de zero a dez. Quase 10% escolheram os níveis nove e dez, considerados próximo do colapso. Cerca de 45% disseram estar altamente ansiosos no trabalho e não sabem como amenizar essa sensação, enquanto 35% apresentam um nível de ansiedade considerado médio. Apenas 10% registraram um índice razoável, que não compromete a saúde mental nem a capacidade de trabalho.

Na opinião de Jaqueline, há um despreparo emocional muito grande nos profissionais que resulta não apenas no aumento da ansiedade, mas na incapacidade de lidar com o sentimento. As empresas, contudo, já estão começando a perceber que precisam desenvolver a inteligência emocional de seus executivos. “Sempre se falou da importância de se ter um bom clima organizacional, mas é preciso enxergar com mais clareza os elementos responsáveis por isso”, diz.

O diretor-presidente da CCR Actua, Wagner Marques, considera a questão da ansiedade bastante presente no dia a dia dos gestores da empresa, onde o trabalho é inerentemente baseado em entregas e prazos. A companhia presta serviços administrativos para todas as concessionárias do grupo de infraestrutura CCR, responsável pela NovaDutra e pelo metrô ViaQuatro, de São Paulo. “Há momentos de excesso de tarefas e sobrecarga que podem gerar uma ansiedade maior. Para isso, é preciso investir para melhorar o ambiente de trabalho”, diz. A solução, ao longo de 2012 e 2103, foi usar o coaching para desenvolver 42 profissionais em cargos de liderança, por meio de reuniões mensais individuais e coletivas. “Cerca de 70% dos nossos líderes fazem parte da geração Y, que já é mais naturalmente ansiosa”, ressalta Marques. “Hoje as pessoas se manifestam mais e isso gerou melhoria dos processos, mais produtividade e comprometimento”, diz. Segundo o presidente, o turnover caiu quase pela metade.

Em 2015, o trabalho deve ser retomado, mas dessa vez tendo como foco a questão do cenário econômico do país – que Marques considera que pode gerar um novo tipo de ansiedade. “Manter essa condição de maior tranquilidade é um trabalho contínuo”, diz. Novamente, a equipe mais jovem – com menos experiência em ambientes econômicos de baixo crescimento e alta inflação – é uma das principais motivações.

Para especialistas, o cenário econômico de mais aperto e incertezas cria um ambiente em que a ansiedade vira parte da rotina. “Com a redução de custos, é inevitável haver cortes no alto escalão, o que intensifica a necessidade da multifunção. Isso acumula estresse”, diz o especialista em comportamento, Luiz Fernando Garcia, CEO da consultoria Cogni-MGR e terapeuta. Além de aprender a conviver com a sobrecarga, os executivos precisam saber lidar, principalmente, com a falta de controle.

Jaqueline também considera essa a principal fonte de ansiedade. “O forte volume de negócios e a alta demanda contribuem, mas uma grande fonte de ansiedade hoje é o fato de as pessoas terem muitas dúvidas”, diz a coach. A falta de transparência na gestão e de clareza nas definições de papéis e responsabilidades, bem como uma comunicação ineficiente dentro do ambiente profissional, contribuem para piorar o quadro.

Garcia afirma que desde o segundo semestre do ano passado há um movimento maior de empresas preocupadas em administrar a ansiedade como parte do desenvolvimento de liderança – sendo que a iniciativa partiu de um pedido dos próprios executivos. “A terapia só é buscada quando alguma coisa está fora do lugar”, enfatiza. Altos níveis de ansiedade, completa Jaqueline, podem ter efeitos colaterais reais na produtividade e nos resultados da empresa.

Para o consultor Marcelo Cardoso, CEO global da consultoria MetaIntegral Associates, o resultado mais comum é o “presenteísmo” – situação em que o profissional está na empresa apenas fisicamente, mas sem se engajar o suficiente no trabalho. É frequente também a preocupação das empresas com custos mais altos com planos de saúde, resultado de um volume maior de distúrbios e doenças que muitas vezes têm a ansiedade como primeiro sintoma. “No fim, a empresa acaba produzindo ineficiência a um custo maior”, diz Cardoso. Obter resultados em situações de maior estresse é uma das questões abordadas no programa de coaching do qual participa Clécio Luís Ferreira Pacheco, gerente regional de vendas da Philip Morris para o interior de São Paulo. “A área de vendas sempre tem a questão de resultado como principal indicador, e é a mais penalizada em momentos de crise”, diz. O objetivo da empresa é trabalhar a expectativa dos profissionais para que o cenário externo não influencie tanto a realização dos negócios, diz Pacheco.

O foco de seu desenvolvimento foi a inteligência emocional – o executivo percebeu que costumava dar mais ênfase para situações de ineficiência, ao invés de valorizar as conquistas da equipe. “Tornei-me mais flexível, o que proporciona um ambiente melhor. Para mudar o emocional dos outros, tenho que começar por trabalhar o meu.”

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